ADÉLIA PRADO
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ARQUIVO GOOGLE |
"Adélia Luiza Prado de Freitas nasceu em 1936 em Divinópolis-MG, onde cresceu e se educou. Formou-se em Filosofia e trabalhou como professora. Em 1971 publicou o livro de poemas “A Lapinha de Jesus”, junto com Lázaro Barreto. Cinco anos depois foi que publicou sozinha seu primeiro livro, Bagagem (1976), revelando uma artista de extrema originalidade e lirismo..."
É ENCANTADORA A OBRA DE ADÉLIA E, MESMO QUANDO EM PALAVRAS UM TANTO VULGARES, FAZ DELAS TÃO PERFEITO USO QUE AS TORNA LEVES E PURAS! CAÍ-ME DE ENCANTAMENTO COM PELOS POEMAS DA MINEIRINHA, TÃO HÁBIL EM INSERIR O LEITOR NO CONTEXTO DAS PEQUENAS CIDADES INTERIORANAS, TÃO DO MEU AGRADO. AO CONTRÁRIO DA MAIORIA DOS POETAS BRASILEIROS, PREFERE FAMÍLIA COMO TEMA, NÃO AMANTES E AMORES. MAS QUANDO OS FOCA É DE FORMA PERFEITA E ÍMPAR!
O alfabeto no parque
Eu sei escrever.
Escrevo cartas, bilhetes, lista de compras,
Composição escolar narrando o belo passeio
À fazenda da vovó que nunca existiu
Porque ela era pobre como Jó.
Mas escrevo também coisas inexplicáveis:
Quero ser feliz, isto é amarelo.
E não consigo, isto é dor.
Vai-te de mim, tristeza, sino gago,
Pessoas dizendo entre soluços:
“não aguento mais”.
Moro num lugar chamado globo terrestre
Onde se chora mais
Que o volume das águas denominadas mar,
Para onde levam os rios outro tanto de lágrimas.
Aqui se passa fome. Aqui se odeia.
Aqui se é feliz, no meio de invenções miraculosas.
Imagine que uma dita roda-gigante
Propicia passeios e vertigens entre
Luzes, música, namorados em êxtase.
[...]
Com perdão da palavra, quero cair na vida.
Quero ficar no parque, a voz do cantor açucarando a tarde...
Assim escrevo: tarde. Não a palavra. (A coisa. -PRADO, 1991, p. 260)
“Códigos”
Quando mamãe disse: filha, vovô morreu, pode falhar de aula,
eu achei morrer muito violoncelírico.
Abriam-se as pastas no começo da aula,
os lápis de ponta fresca recendiam.
O rapaz de espinhas me convocava aos abismos,
nem comia as goiabas,
desnorteada de palpitações.
Filho-da-puta se falava na minha casa,
desgraçado nunca, porque graça é de Deus.
No teatro ou no enterro,
o sexofone me põe atrás do moço,
porque as valsas convergem, os lençóis estendidos,
abril, anil, lavadeira no rio,
os domingos convergem.
O entre-parênteses estaca pra convergir com mais força:
no curso primário estudei entusiasmada o esqueleto humano da galinha.
Quero estar cheia de dor mas não quero a tristeza.
Por algum motivo fui parida incólume,
entre escorpiões e chuva. (O coração disparado, Nova Fronteira - 1978 )
( NÃO RESISTI . . . TROUXE DUAS )
Oi, Leonor!
ResponderExcluirComo é bom ver blogs disseminando poesias, lindas leituras e uma escritora de peso como Adélia Prado que nunca deve ser esquecida.
Eu adoro esta escritora e percebo nela um modo de dizer as coisas do cotidiano com pitadas de poesia e romantismo, mas sempre direta, às vezes desconcertante, mas adoro!
beijos cariocas